Psicóloga especialista em análise do comportamento aplicada elenca quatro passos importantes para famílias de crianças com TEA seguirem Receber o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode despertar uma série de emoções: surpresa, dúvidas, medo do futuro e até insegurança sobre como agir. É natural que pais e cuidadores se sintam sobrecarregados nesse momento, sem saber por onde começar, afinal muitas coisas que desejavam e esperavam para seu filho ou filha, neste momento, parece desmoronar. Nesta hora, é importante entender que o diagnóstico é um ponto de partida e não define o destino da criança. Ele abre portas importantes, pois permite acesso a direitos, sinaliza a necessidade de intervenções adequadas e ajuda a compreender melhor os comportamentos e potencialidades individuais. Nos primeiros anos de vida, o cérebro é altamente plástico, o que significa que ele tem uma capacidade única de aprender, se adaptar e desenvolver habilidades fundamentais como linguagem, atenção e interação social. Por isso, o início tardio de intervenções pode representar oportunidades perdidas para que a criança construa bases sólidas para o futuro. Dados do Relatório Painel TEA Brasil 2025, encomendado pelo Grupo Conduzir confirmam essa janela de atenção: a prevalência de diagnósticos de TEA é maior na infância, especialmente entre crianças de 5 a 9 anos, com 2,6% da população nessa faixa etária diagnosticada. Entre os meninos, esse número chega a 3,8%. O período logo após o diagnóstico é o mais estratégico para atuar de forma estruturada e segura. Especialistas alertam que, em alguns casos, os sinais podem ser observados a partir dos 12 meses. “O acompanhamento contínuo desde cedo fortalece a comunicação e reduz comportamentos desafiadores, criando um efeito “bola de neve positiva”: habilidades aprendidas cedo geram novas oportunidades, enquanto a família sente menos frustração e desamparo”, explica Larissa Aguirre, psicóloga especialista em Terapia ABA e Diretora Técnica do Grupo Conduzir. Guia para os primeiros meses de intervenção O primeiro passo é organizar a documentação básica, reunindo laudos, relatórios e informações escolares. Isso abre portas para o acesso a serviços, planos de saúde e programas educacionais. Em seguida, é essencial buscar uma avaliação comportamental completa, que vai além do diagnóstico: identificar como a criança se comunica, quais habilidades já possui e quais comportamentos precisam de intervenção. Esse entendimento detalhado permite que cada estratégia seja personalizada e eficaz e deve ser feito com um psicólogo analista do comportamento, profissional qualificado para realizar essa análise de forma estruturada e baseada em evidências. O terceiro passo é selecionar uma equipe qualificada e multidisciplinar, composta por profissionais que trabalham com práticas baseadas em evidência e com supervisão estruturada, como analistas do comportamento, psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. Contar com especialistas preparados garante que cada ação seja segura, consistente e adequada às necessidades da criança. Atualmente, o protocolo que possui mais comprovação científica é o ABA, método que utiliza princípios da ciência do comportamento para ensinar habilidades como comunicação, interação social e autonomia de forma estruturada, mensurável e individualizada De acordo com Larissa, cuidar da saúde emocional da família também é um passo importante. Os pais ou cuidadores também devem buscar seguir um treino parental, participando ativamente do desenvolvimento da criança. Aprender como estimular habilidades, manejar comportamentos e aplicar estratégias no dia a dia transforma a família em protagonista do processo, potencializando os resultados e criando continuidade no aprendizado. Intervenção baseada em evidência Optar por intervenções baseadas em evidência científica é uma decisão que impacta diretamente o desenvolvimento, a segurança e o futuro da criança. A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é considerada padrão ouro por reunir décadas de evidências científicas e comprovar eficácia em comunicação, habilidades sociais e autonomia. Individualizada, mensurável e ajustável, cada intervenção é baseada na avaliação da criança, com metas personalizadas e acompanhamento contínuo, garantindo progresso consistente e resultados concretos. Além disso, a equipe garante acompanhamento coordenado, reuniões periódicas, compartilhamento de dados, supervisão interdisciplinar e avaliação contínua para atualizar metas conforme o progresso da criança. O impacto dessa abordagem é amplo. Intervenções precoces ampliam a generalização de habilidades, ou seja, a capacidade da criança de aplicar o que aprendeu em diferentes contextos, pessoas e situações. Também fortalecem a autonomia e reduzem comportamentos desafiadores, ao mesmo tempo em que promovem mais segurança e confiança para os cuidadores. A família, ao receber orientação e participar ativamente do processo, se torna protagonista no desenvolvimento da criança, criando continuidade no aprendizado e diminuindo o estresse diário. Durante o Abril Azul, refletir sobre essas práticas reforça a importância de acesso a profissionais qualificados, metodologias confiáveis e acompanhamento estruturado. Enxergar além do diagnóstico possibilita que a criança explore seu potencial, promovendo inclusão, desenvolvimento e oportunidades de participação na sociedade.