Durante muito tempo, muitas famílias ouviram a mesma frase ao receber a indicação de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA): “Se usar figuras ou pranchas de comunicação, a criança nunca vai falar”. Apesar dos avanços no entendimento sobre neurodesenvolvimento, o mito ainda faz com que crianças autistas passem meses ou até anos sem acesso a ferramentas que poderiam reduzir frustração, crises e dificuldades de interação.
A Comunicação Aumentativa e Alternativa reúne recursos como pranchas ilustradas, aplicativos, imagens, gestos e dispositivos que auxiliam crianças com dificuldades de fala ou comunicação funcional. E, ao contrário do que muitos pais temem, ela não substitui a linguagem oral.
Segundo a fonoaudióloga Paula Anderle, a comunicação alternativa funciona justamente como uma ponte para o desenvolvimento comunicativo.
“A comunicação precisa acontecer antes da fala perfeita. Quando a criança consegue pedir água, mostrar dor, escolher um brinquedo ou dizer que não quer algo, ela reduz sofrimento e passa a participar mais do mundo ao redor. A CAA não limita a fala, ela amplia possibilidades de comunicação”, explica.
A especialista afirma que um dos maiores desafios ainda é combater a ideia de que comunicação só existe quando a criança fala verbalmente.
“Toda comunicação importa. Um gesto, um olhar, uma figura apontada ou um botão acionado têm intenção comunicativa. Muitas crianças passam menos tempo frustradas e mais abertas à interação quando conseguem finalmente ser compreendidas”, destaca Paula.
Além do ambiente terapêutico, o uso da CAA também pode melhorar a participação escolar, autonomia e relações familiares. Segundo a fonoaudióloga, pequenas adaptações já fazem diferença no cotidiano.
“Quando a criança percebe que consegue ser entendida, ela tende a se engajar mais socialmente, participar de brincadeiras e demonstrar preferências. Comunicação é qualidade de vida.”
A discussão ganha ainda mais relevância diante do aumento de diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento e da necessidade de inclusão efetiva nas escolas.