Saúde mental já impacta segurança nas estradas e pode estar por trás de milhares de acidentes no Brasil
Estudos já associam fadiga emocional, ansiedade, burnout e exaustão mental a falhas humanas no trânsito; especialistas alertam que trabalhadores adoecidos podem estar por trás de parte dos mais de 72 mil acidentes registrados nas rodovias federais brasileiras em 2025
A relação entre saúde mental e acidentes de trânsito começa a ganhar dimensão alarmante no Brasil. Ansiedade, depressão, estresse crônico, burnout, fadiga emocional e privação de sono já aparecem associados a falhas humanas que comprometem percepção, reflexo, atenção e tomada de decisão ao volante; e especialistas alertam que o País pode estar diante de uma crise silenciosa de segurança viária ligada ao adoecimento psicológico dos trabalhadores.
De acordo com levantamento divulgado em 2026 pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), com base em dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), 27,8% dos sinistros registrados em rodovias federais entre 2014 e 2024 tiveram relação direta com condições de saúde dos motoristas.
Entre os fatores identificados pela Abramet aparecem ausência de reação, sonolência, fadiga, falta de atenção, transtornos mentais, mal súbito e uso de substâncias psicoativas (elementos que têm relação direta com desgaste emocional, exaustão mental e comprometimento cognitivo).
O mesmo levantamento da entidade, elaborado a partir de registros oficiais da PRF, mostra ainda que quase metade das ocorrências nas rodovias brasileiras está associada ao chamado “fator humano”, ligado ao comportamento emocional e cognitivo do condutor.
Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal, somente em 2025 as rodovias federais brasileiras registraram mais de 72 mil acidentes, com mais de 6 mil mortes e cerca de 83 mil feridos.
Para o médico e presidente da ABRESST (Associação Brasileira das Empresas de Saúde e Segurança no Trabalho), Dr. Ricardo Pacheco, os números mostram que a saúde mental deixou de ser apenas uma pauta clínica ou corporativa e passou a representar também um problema de segurança pública. “Existe uma conexão muito clara entre saúde mental, esgotamento psicológico e segurança viária. O trabalhador não deixa o sofrimento emocional na porta da empresa. Ele leva isso para o trânsito, para o volante e para situações que exigem atenção, reflexo e equilíbrio emocional. Muitas vezes estamos falando de pessoas que dirigem diariamente já em estado de exaustão cognitiva”, afirma.
Fadiga emocional afeta percepção, reação e tomada de decisão
Segundo especialistas em medicina ocupacional e saúde do trabalhador, o esgotamento mental pode comprometer diretamente habilidades essenciais para uma direção segura. Entre os efeitos mais comuns estão redução da concentração, lentidão de raciocínio, impulsividade, perda de atenção sustentada, irritabilidade, sonolência e dificuldade de reação diante de situações de risco.
Na avaliação da ABRESST, isso ajuda a explicar por que o debate sobre saúde mental precisa sair do campo exclusivamente previdenciário ou corporativo e avançar também para áreas como segurança operacional, logística, mobilidade urbana e prevenção de acidentes. “Hoje ainda existe uma visão muito limitada sobre saúde mental nas empresas. O foco normalmente fica no afastamento ou no burnout. Mas existe um impacto silencioso acontecendo fora dos ambientes corporativos: trabalhadores emocionalmente adoecidos estão dirigindo”, alerta Dr. Ricardo Pacheco.
Caminhoneiros, motoristas de aplicativo e profissionais sob pressão
A preocupação é ainda maior entre categorias submetidas a jornadas extensas, metas agressivas, pressão por produtividade e longos períodos de direção contínua.
Pesquisas envolvendo caminhoneiros e profissionais do transporte apontam que jornadas superiores a 12 horas aumentam significativamente o risco de ansiedade, depressão, estresse crônico e distúrbios do sono, fatores diretamente associados à redução da capacidade cognitiva e ao aumento do risco de acidentes.
Segundo Dr. Ricardo Pacheco, o problema não atinge apenas motoristas profissionais. “Estamos falando de caminhoneiros, motoristas de aplicativo, entregadores, operadores de frota, vendedores externos e também do trabalhador comum que enfrenta pressão psicológica intensa, metas abusivas, ambientes tóxicos e sai emocionalmente esgotado do expediente para assumir o volante. Muitas vezes ele já está mentalmente comprometido sem sequer perceber”, explica.
O crescimento do trabalho sob pressão constante, associado à hiperconectividade, jornadas prolongadas e insegurança profissional, tem ampliado os fatores de desgaste emocional entre trabalhadores de diferentes setores.
Brasil registra recorde histórico de afastamentos por transtornos mentais
O avanço dessa discussão ocorre em meio ao crescimento histórico dos transtornos mentais no País.
Segundo dados divulgados pelo Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou, em 2025, mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais (o maior número da série histórica). Ansiedade e depressão lideram os afastamentos.
O crescimento consolida uma tendência contínua de agravamento da saúde mental no trabalho. Dados mostram que, em 2024, o País já havia ultrapassado 470 mil afastamentos por transtornos mentais, número mais que duas vezes superior ao registrado dez anos antes.
Esses indicadores ajudam a demonstrar que os riscos psicossociais já produzem impactos econômicos, operacionais e humanos muito mais amplos do que se imaginava. “Existe uma falsa percepção de que saúde mental afeta apenas produtividade ou absenteísmo. Mas estamos falando também de risco operacional, segurança coletiva e preservação da vida. Um trabalhador emocionalmente esgotado pode apresentar perda de foco, fadiga extrema, lentidão cognitiva e redução da capacidade de reação. Isso no trânsito pode ser fatal”, destaca Dr. Ricardo Pacheco.
Norma amplia responsabilidade das empresas sobre riscos psicossociais
O debate ganha ainda mais relevância diante da atualização da NR-1, que reforça a necessidade de identificação e gerenciamento dos riscos psicossociais dentro das organizações.
Na avaliação da ABRESST, o conceito de prevenção em Segurança e Saúde no Trabalho precisa avançar para compreender que o risco psicossocial não termina dentro da empresa e pode gerar impactos diretos na segurança das operações, na mobilidade urbana e até mesmo nos índices de acidentes fatais. “Quando falamos em risco psicossocial, estamos falando também de prevenção de acidentes. Um ambiente de trabalho adoecedor pode gerar consequências muito além da empresa. Pode afetar famílias inteiras, aumentar riscos operacionais e contribuir para tragédias nas estradas brasileiras”, conclui Dr. Ricardo Pacheco.
Sobre a ABRESST
A Associação Brasileira de Empresas de Saúde e Segurança no Trabalho é uma entidade civil, de caráter profissional e sem fins lucrativos, com atuação em todo território nacional. É uma entidade que desde 1998 reúne e representa as empresas do setor, evidenciando para a sociedade os esforços que seus associados têm feito para melhorar a qualidade de vida do trabalhador brasileiro.
Reunindo empresas da área de saúde e segurança no trabalho e criando normas e métodos de qualificação dos serviços da categoria, a ABRESST defende legalmente os interesses de seus associados, representando todos com muito empenho e dedicação.
A ABRESST é presidida pelo médico Dr. Ricardo Pacheco, CRM-SP 87570 I RQE 22.683.
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Sandra Cunha, jornalista
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