Durante décadas, o sucesso de uma dieta foi medido pelo ponteiro da balança. Quanto menor o peso, maior a sensação de que a saúde estava em dia. Mas a ciência tem mostrado que essa lógica é simplista. Hoje, médicos e pesquisadores defendem que o peso corporal, isoladamente, diz pouco sobre o verdadeiro estado de saúde de uma pessoa. O foco passou a ser a composição corporal — especialmente a preservação da massa muscular e a redução da gordura visceral — fatores diretamente relacionados à prevenção de doenças, ao envelhecimento saudável e à qualidade de vida. Mais do que emagrecer, o desafio é construir um corpo metabolicamente saudável, forte e funcional.
Essa mudança de paradigma é respaldada por pesquisas recentes. Um estudo publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism demonstrou que a relação entre gordura corporal e massa muscular é um importante indicador de risco para mortalidade, reforçando que a qualidade da composição corporal tem maior impacto sobre a saúde do que o peso isoladamente.
Na rotina dos consultórios, essa diferença aparece com frequência. Não é raro que pacientes celebrem a redução dos números na balança sem perceber que parte do peso perdido corresponde à massa muscular, enquanto outros se frustram porque o peso permanece praticamente o mesmo, apesar da melhora na alimentação, da prática de exercícios e da redução da gordura corporal. Segundo o médico Leonardo Kyrillos, médico focado em nutrologia e performance esportiva, essa é uma das principais limitações de avaliar a saúde apenas pelo peso. "Duas pessoas podem ter exatamente o mesmo peso e o mesmo IMC, mas apresentar perfis metabólicos completamente diferentes. Uma pode possuir boa quantidade de massa muscular, baixo percentual de gordura visceral e excelente condicionamento físico. Outra pode apresentar pouca massa muscular, excesso de gordura abdominal, resistência à insulina e maior risco cardiovascular", explica. Para o especialista, "o objetivo não deve ser apenas perder peso, mas melhorar a composição corporal: reduzir gordura, especialmente a visceral, e preservar ou aumentar massa muscular".
Na corrida contra a balança, o músculo pode ser o maior perdedor
O cuidado com a massa muscular também mudou a forma como médicos conduzem tratamentos para emagrecimento. A perda acelerada de peso, quando não é acompanhada de estratégias para preservar os músculos, pode comprometer a força, reduzir o metabolismo e aumentar a chance de recuperar os quilos perdidos no futuro. "Perder peso rapidamente sem preservar a massa muscular pode reduzir força, piorar a capacidade funcional e favorecer o reganho de peso", afirma Kyrillos. Por isso, explica, o emagrecimento saudável deve priorizar a redução da gordura corporal sem comprometer a massa magra.
Nesse processo, alimentação e exercício caminham juntos. A proteína fornece os aminoácidos necessários para a formação e recuperação do tecido muscular, mas, sozinha, não é suficiente para promover o ganho de músculos. "A proteína sozinha não 'constrói músculo'. Ela fornece os blocos necessários, enquanto o exercício, especialmente o treinamento de força, é o principal estímulo para que o organismo utilize esses aminoácidos na construção e manutenção da massa muscular", explica o médico. Além de favorecer a recuperação após os treinos, a ingestão adequada de proteínas ajuda a preservar a massa magra durante o emagrecimento, aumenta a saciedade e contribui para um discreto aumento do gasto energético.
O treinamento de força, antes associado principalmente à estética, passou a ser recomendado como uma das principais ferramentas de promoção da saúde. Seus benefícios incluem melhora da sensibilidade à insulina, controle da pressão arterial, fortalecimento dos ossos, redução da gordura corporal e menor risco de doenças cardiovasculares. Também há evidências de impacto positivo sobre a cognição, a saúde mental e a capacidade funcional. "Hoje há evidências mostrando que pessoas com maior força muscular apresentam menor risco de mortalidade por todas as causas, independentemente do peso corporal", ressalta Kyrillos.
Preservação muscular ajuda a manter autonomia no envelhecimento
A preservação da massa muscular ganha importância ainda maior com o avanço da idade. A partir da meia-idade, ocorre uma perda gradual de músculos e força que, quando acentuada, caracteriza a sarcopenia. A condição está associada ao aumento do risco de quedas, fraturas, hospitalizações e perda da independência. Embora faça parte do processo de envelhecimento, sua evolução pode ser retardada com hábitos adotados ao longo da vida.
Para isso, especialistas recomendam a combinação de treinamento resistido, ingestão adequada de proteínas, sono de qualidade, hidratação e manutenção de um estilo de vida ativo. Também é importante investigar e tratar doenças crônicas e deficiências nutricicionais que possam acelerar a perda muscular. "Quanto mais cedo esses hábitos são incorporados, maior é a 'reserva muscular' construída ao longo da vida. Isso significa chegar ao envelhecimento com mais força, mobilidade e independência, reduzindo o risco de incapacidade e melhorando a qualidade de vida", afirma dr. Leonardo.
A mudança de paradigma também chegou aos consultórios. Embora o Índice de Massa Corporal (IMC) continue sendo utilizado como ferramenta de rastreamento, ele já não é suficiente para avaliar a saúde de forma individual. Exames como bioimpedância e densitometria corporal (DXA) permitem medir gordura visceral, percentual de gordura, massa muscular e densidade óssea, oferecendo uma visão mais completa do organismo e auxiliando no planejamento de intervenções nutricionais e de atividade física.
Para Kyrillos, essa abordagem acompanha um conceito cada vez mais presente na medicina preventiva: o healthspan, termo utilizado para definir o período da vida vivido com saúde, autonomia e capacidade funcional. "Hoje entendemos que músculo é muito mais do que um tecido responsável pelo movimento. Ele funciona como um órgão metabolicamente ativo, participa da regulação da glicemia, produz miocinas com efeitos anti-inflamatórios e está fortemente associado à redução do risco de doenças crônicas e mortalidade. Por isso, preservar massa muscular tornou-se um dos principais objetivos da medicina preventiva e da nutrologia contemporânea."
ESPECIALISTA - Dr. Leonardo Kyrillos é médico, pós graduado em nutrologia e medicina esportiva
Formado pelo Centro Universitário São Camilo (CUSC). Possui pós-graduação em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), em parceria com a Faculdade Campos Elíseos (FCE), com formação realizada no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo (IAMSPE). Também é pós-graduado em Medicina Esportiva pela Faculdade Phorte.
Atua nas áreas de nutrologia e medicina esportiva, com foco em saúde, prevenção de doenças, bem-estar e qualidade de vida.
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