Psicóloga Adriana de Araujo - Psicóloga, mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Autónoma de Lisboa, com reconhecimento e validação no Brasil pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), hipnoterapeuta, escritora e palestrante internacional. Atua como psicóloga há 27 anos e possui formação internacional em Hipnoterapia e Programação Neurolinguística. É idealizadora, organizadora e coautora de Para Compreender a Disautonomia, Síndrome Vasovagal e POTS.
Outubro Turquesa surgiu oficialmente no ano de 2012. A campanha global foi criada pela organização sem fins lucrativos Dysautonomia International com o objetivo de conscientizar a população, médicos e governos sobre a disautonomia, um conjunto de condições médicas que afetam o funcionamento do sistema nervoso autônomo (responsável por controlar funções involuntárias como os batimentos cardíacos, a pressão arterial e a digestão).
A cor turquesa foi escolhida após uma votação realizada pela própria instituição, gerando o lema internacional "Make noise for turquoise" (Faça barulho pelo turquesa). No Brasil, associações de pacientes como a ABEMDIS (Associação Brasileira de Encefalomielite Miálgica e Disautonomia) utilizam o mês para dar visibilidade a essas doenças crônicas e invisíveis.
“É ansiedade?”: psicóloga alerta para o risco de confundir sintomas da disautonomia com questões emocionais
Pacientes com POTS e síndrome vasovagal podem enfrentar uma longa jornada até o diagnóstico; psicóloga Adriana de Araújo defende escuta multidisciplinar e maior informação sobre a condição
Tontura, desmaios, palpitações, fadiga, sensação de fraqueza e mal-estar podem ser interpretados, em um primeiro momento, como sinais de ansiedade ou estresse. Para pessoas que vivem com disautonomia, porém, esses sintomas podem ter uma origem fisiológica e fazer parte de condições como a Síndrome da Taquicardia Postural Ortostática (POTS) e a síndrome vasovagal. O problema é que o desconhecimento ainda pode levar pacientes a uma longa peregrinação por consultórios em busca de respostas.
A disautonomia é um mau funcionamento do sistema nervoso autônomo (SNA), responsável por controlar funções automáticas do corpo como batimentos cardíacos, pressão arterial e digestão.
A questão é um dos principais pontos levantados pela psicóloga Adriana de Araújo, idealizadora, organizadora e coautora do livro Para Compreender a Disautonomia, Síndrome Vasovagal e POTS – experiências profissionais, estudos, histórias e horizontes. A obra reúne mais de 50 profissionais e colaboradores e busca ampliar o conhecimento sobre condições que ainda são pouco compreendidas.
Um dos capítulos da publicação, inclusive, traz um título que resume a experiência de muitos pacientes: “Não, não é psicológico, não!”. A provocação não significa negar a importância da psicologia no tratamento, mas chamar atenção para um problema recorrente: atribuir automaticamente sintomas físicos a questões emocionais sem que outras possibilidades sejam devidamente investigadas.
Quando o diagnóstico demora anos - A jornada de quem convive com disautonomia pode ser marcada por consultas, exames e diferentes hipóteses antes que se chegue a uma explicação. No livro organizado por Adriana, aparecem relatos que ajudam a dimensionar esse percurso. Um dos casos apresentados é o de uma jovem que passou por 80 médicos durante oito anos antes de encontrar respostas para seu quadro.
Para a psicóloga, experiências como essa podem produzir consequências emocionais importantes.
Depois de ouvir repetidamente que “não há nada de errado” ou que determinados sintomas seriam apenas emocionais, o paciente pode começar a questionar a própria percepção, além de desenvolver frustração, insegurança e sensação de incompreensão.
“Imagine sentir que alguma coisa está errada com seu corpo e, durante anos, ouvir que é apenas psicológico. Isso pode afetar profundamente a autoestima, os relacionamentos e a própria confiança que a pessoa tem em relação às suas sensações”, explica.
Psicologia não é inimiga do diagnóstico
A discussão proposta por Adriana também busca evitar outro equívoco: colocar saúde física e saúde mental em lados opostos.
A psicoterapia pode ter papel importante para pessoas que convivem com condições crônicas ou de difícil diagnóstico. O profissional pode ajudar o paciente a lidar com mudanças na rotina, limitações, medo, frustração e impactos na vida social e profissional.
O ponto, segundo a psicóloga, é que o acompanhamento psicológico deve fazer parte do cuidado, e não ser utilizado para invalidar sintomas físicos.
“Não se trata de dizer que não existe um componente emocional. Existe, e ele precisa ser cuidado. Mas precisamos diferenciar aquilo que é consequência emocional de uma condição física daquilo que é a causa dos sintomas”, ressalta.
Uma condição pouco conhecida fora dos consultórios especializados
A disautonomia envolve alterações no funcionamento do sistema nervoso autônomo, responsável por regular funções involuntárias do organismo. Dependendo da condição, podem surgir manifestações cardiovasculares, neurológicas e gastrointestinais, entre outras.
No caso da POTS, por exemplo, uma das características é uma alteração importante da frequência cardíaca quando a pessoa passa da posição deitada ou sentada para ficar em pé.
O desconhecimento sobre essas condições pode fazer com que pacientes, familiares e até profissionais tenham dificuldade para reconhecer os sinais.
Informação também é uma forma de acolhimento
Para Adriana, ampliar o debate sobre disautonomia também significa discutir a relação entre informação, diagnóstico e saúde mental.
Quanto mais o paciente compreende o que está acontecendo, maiores podem ser suas condições de participar ativamente do próprio tratamento e de explicar aos familiares e às pessoas ao redor as limitações que enfrenta.
A psicóloga defende ainda que a discussão não fique restrita aos meses de campanhas de conscientização.
“Precisamos falar sobre essas condições durante todo o ano. Quando uma pessoa encontra informação, ela deixa de se sentir tão sozinha e passa a ter mais elementos para buscar ajuda adequada”, afirma.
A experiência de Adriana na área de psicologia e seu trabalho com pacientes que enfrentam condições complexas colocam a profissional como fonte para discutir saúde mental, doenças crônicas, relação entre corpo e mente, diagnóstico tardio, acolhimento de pacientes e os impactos psicológicos da falta de informação na área da saúde.
Psicóloga amplia debate sobre disautonomia e alerta para os impactos de sintomas que muitas vezes são confundidos com questões psicológicas
Obra reúne mais de 50 profissionais e pacientes para explicar condições como POTS e síndrome vasovagal e defender uma abordagem multidisciplinar
Durante anos, pessoas com sintomas como desmaios, tonturas, palpitações, fadiga e intolerância a determinadas situações podem percorrer diferentes consultórios em busca de respostas. Em alguns casos, a ausência de um diagnóstico claro pode fazer com que manifestações físicas sejam atribuídas exclusivamente à ansiedade ou a fatores psicológicos. É justamente para ampliar o conhecimento sobre esse cenário que a psicóloga Adriana de Araújo idealizou e organizou o livro Para Compreender a Disautonomia, Síndrome Vasovagal e POTS – experiências profissionais, estudos, histórias e horizontes.
Disponibilizada gratuitamente pela plataforma Internet Archive, a publicação reúne a participação de mais de 50 profissionais e colaboradores, com diferentes perspectivas sobre disautonomia, síndrome vasovagal e POTS (Síndrome da Taquicardia Postural Ortostática). A proposta é aproximar informação científica, experiências de pacientes e diferentes áreas do conhecimento para contribuir para uma compreensão mais ampla dessas condições.
Para Adriana, um dos pontos centrais da discussão é a necessidade de evitar que sintomas físicos sejam automaticamente interpretados como manifestações psicológicas. A própria obra traz como um de seus capítulos “Não, não é psicológico, não!”, defendendo que o sofrimento emocional pode aparecer como consequência da convivência com uma condição crônica e da dificuldade de obter respostas, mas isso não significa que seja necessariamente a causa dos sintomas.
Quando o paciente precisa provar que está doente
A experiência de pessoas que passam por anos sem diagnóstico é um dos elementos que dão à publicação um caráter que vai além da literatura técnica. O livro apresenta relatos de pacientes e situações em que a busca por respostas se prolongou por anos, incluindo a história de uma jovem que passou por 80 médicos ao longo de oito anos antes de encontrar uma explicação para seu quadro.
“Quando uma pessoa apresenta sintomas que não são facilmente compreendidos, ela pode acabar questionando o próprio corpo e a própria percepção. O nosso objetivo é contribuir para que o paciente seja ouvido e para que profissionais tenham mais informação para considerar a disautonomia dentro de suas possibilidades diagnósticas”, afirma Adriana.
A psicóloga destaca que reconhecer a dimensão física da disautonomia não significa ignorar os aspectos emocionais. Pelo contrário: o acompanhamento psicológico pode integrar o cuidado, ajudando o paciente a lidar com as consequências emocionais, sociais e funcionais de uma condição que, muitas vezes, interfere profundamente na rotina.
Uma questão que exige diferentes áreas do conhecimento
A proposta de Adriana é justamente mostrar que a disautonomia não deve ser analisada a partir de uma única perspectiva. O livro reúne conteúdos relacionados a diferentes áreas e aborda temas como diagnóstico, sintomas, experiências dos pacientes, estratégias de enfrentamento, aspectos psicológicos, políticas públicas e a necessidade de maior preparo dos profissionais de saúde.
“O caminho é multidisciplinar. Psicólogos, cardiologistas, neurologistas, psiquiatras e outros profissionais precisam compreender que estamos falando de manifestações reais e que o paciente precisa ser acolhido de maneira integral”, explica a psicóloga.
Segundo Adriana, a falta de informação pode gerar consequências que vão além do consultório. O desconhecimento sobre essas condições pode impactar a vida profissional, os relacionamentos, a autonomia e a qualidade de vida dos pacientes. No ambiente corporativo, por exemplo, a falta de reconhecimento das limitações pode estar relacionada a absenteísmo, presenteísmo e perda de produtividade.
Informação gratuita para ampliar o acesso
Um dos diferenciais do projeto é a decisão de disponibilizar a obra gratuitamente. A publicação pode ser lida online e também conta com versão em áudio, ampliando as possibilidades de acesso ao conteúdo.
A escolha por uma plataforma de acesso livre tem justamente o objetivo de fazer com que a informação chegue a pacientes, familiares, profissionais de saúde e pessoas que ainda estejam tentando compreender sintomas sem diagnóstico definido.
Adriana também mantém uma produção contínua de conteúdo sobre o tema. Em 2026, passou a publicar uma curadoria semanal sobre disautonomia, reunindo informações sobre pesquisas e acontecimentos nacionais e internacionais relacionados ao assunto, com o objetivo de traduzir o conhecimento para uma linguagem mais acessível.
Psicologia como parte do cuidado, não como explicação para tudo
Para a psicóloga, discutir disautonomia também representa uma oportunidade de repensar a relação entre corpo e mente.
A psicoterapia pode auxiliar pessoas que convivem com condições crônicas a compreender seus limites, identificar gatilhos, desenvolver estratégias de adaptação e lidar com os impactos emocionais provocados pela doença. Isso, porém, não significa transformar sintomas físicos em problemas psicológicos.
“O paciente pode precisar de apoio psicológico justamente porque está enfrentando uma realidade física difícil, mudanças na rotina, insegurança e, muitas vezes, a sensação de não ser compreendido. Cuidar da saúde mental é importante, mas isso não deve servir para invalidar aquilo que o corpo está apresentando”, ressalta Adriana.
Com o projeto, a psicóloga pretende contribuir para uma mudança de olhar: menos julgamento, mais escuta e maior integração entre diferentes áreas do conhecimento.
“Antes de dizer que é ansiedade, precisamos ouvir, investigar e considerar todas as possibilidades. Informação também é uma forma de cuidado”, conclui.