Mais de 10% das mulheres brasileiras em idade reprodutiva convivem com a endometriose, doença inflamatória crônica que ocorre quando um tecido semelhante ao que reveste o interior do útero passa a crescer fora dele, provocando inflamação, dor e, em alguns casos, infertilidade. Para muitas delas, uma dúvida costuma surgir logo após o diagnóstico: a doença pode aumentar o risco de câncer?
Uma revisão internacional, publicada em junho de 2026 na revista científica Gynecologic Oncology, ajuda a responder essa questão. O estudo, conduzido por especialistas em endometriose e oncologia ginecológica de diversos países, confirma que mulheres com endometriose apresentam maior risco de desenvolver alguns tipos específicos de câncer de ovário.
A principal conclusão, porém, é outra: apesar do aumento do risco relativo, a chance real de desenvolver a doença continua baixa para a maioria das pacientes.
"Muitas mulheres recebem o diagnóstico de endometriose e imediatamente ficam preocupadas com a possibilidade de desenvolver câncer. O que esse estudo mostra é que existe uma associação científica real, mas ela precisa ser interpretada com cautela. O aumento do risco não significa que a maioria dessas pacientes terá câncer de ovário", explica o médico Marcos Maia, especialista em ginecologia oncológica e endometriose.
Existe uma associação biológica e epidemiológica entre a endometriose e determinados subtipos de câncer de ovário, especialmente os carcinomas endometrioide e de células claras. Mas é fundamental interpretar esses números corretamente para evitar medo desnecessário, esclarece o especialista.
O que diz o estudo
A revisão identificou que mulheres com endometriose apresentam risco relativo entre 1,3 e 4,2 vezes maior para câncer de ovário do que àquelas não diagnosticadas com a condição. Em pacientes com endometriomas ovarianos ou endometriose infiltrativa profunda, os riscos observados foram ainda maiores. Entretanto, quando os pesquisadores avaliaram o risco absoluto, encontraram um cenário bastante diferente.
Na população feminina em geral, o risco de câncer de ovário ao longo da vida é estimado em cerca de 1,4%. Entre mulheres com endometriose, esse percentual sobe para aproximadamente 1,9%.
"Quando observamos apenas o risco relativo, os números podem parecer alarmantes. Mas, na prática clínica, o dado mais importante é que a maioria das mulheres com endometriose nunca desenvolverá câncer de ovário", afirma Marcos Maia.
Rastreamento não é recomendado
O trabalho também reforça que não existem evidências científicas que justifiquem exames de rastreamento oncológico de rotina ou cirurgias preventivas apenas por causa do diagnóstico de endometriose. A recomendação continua sendo o acompanhamento individualizado, levando em consideração o histórico clínico, a extensão da doença e os fatores de risco de cada paciente.
"A mensagem mais importante para as pacientes é que elas devem manter acompanhamento médico regular, especialmente nos casos mais complexos da doença, mas sem medo excessivo. O conhecimento científico serve para orientar decisões mais precisas e não para gerar ansiedade desnecessária”, conclui.
Para o especialista, a principal contribuição da revisão é justamente equilibrar vigilância e tranquilidade, permitindo que mulheres com endometriose recebam informações baseadas em evidências, sem alarmismo e sem intervenções desnecessárias.
Fui diagnosticada com endometriose. E agora?
Receber o diagnóstico de endometriose pode gerar dúvidas, insegurança e até medo, especialmente diante do grande volume de informações disponíveis na internet. Embora a doença exija acompanhamento médico e atenção aos sintomas, o diagnóstico não deve ser encarado como uma sentença.