Jogos on-line nas férias: onde termina a diversão e começam os riscos?
Com mais tempo livre nas férias, crianças passam mais horas conectadas. Especialista explica os principais riscos dos jogos on-line, o que é obrigação das plataformas e quais direitos os pais têm em casos de golpes, assédio e compras indevidas.
As férias chegaram e, para muitos pais, a rotina virou uma negociação diária: quanto tempo deixar o filho no videogame?
Embora os jogos on-line sejam uma das principais formas de entretenimento de crianças e adolescentes, especialistas alertam que o maior risco nem sempre está no excesso de tempo de tela.
Está nas pessoas, nas conversas e nas informações que circulam dentro dessas plataformas.
Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br/NIC.br, a maioria das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos já utiliza a internet diariamente e uma parcela significativa joga on-line com outras pessoas, muitas delas desconhecidas.
Quanto maior o tempo conectado durante as férias escolares, maior também a exposição a situações como aliciamento, golpes, compras não autorizadas, cyberbullying e coleta excessiva de dados pessoais.
Para o advogado Dr. Danilo Melo, é preciso mudar a forma como as famílias enxergam esse universo. "Aqui vai a verdade que pouca gente para pra pensar: o jogo que seu filho abre no celular não é só um jogo. É uma porta aberta."
Segundo ele, do outro lado desta porta pode haver pessoas mal-intencionadas tentando iniciar contato com crianças e adolescentes, além de conteúdos inadequados, golpes financeiros e mecanismos que estimulam gastos impulsivos.
"O famoso grooming (aliciamento digital), o cyberbullying, as compras dentro do jogo que ninguém autorizou, a coleta excessiva de dados, golpes financeiros, phishing, dependência e a exposição da imagem e das informações do próprio menor fazem parte dos riscos.
E não é papo de pai paranoico: boa parte disso esbarra diretamente no Estatuto da Criança e do Adolescente, na Lei Geral de Proteção de Dados e no Código de Defesa do Consumidor", explica.
Nem todo risco aparece na tela - Ao contrário do que muitos imaginam, problemas envolvendo jogos on-line nem sempre começam com um golpe evidente. Na maioria das vezes, eles aparecem primeiro no comportamento da criança.
Segundo o advogado, mudanças bruscas de humor podem funcionar como um alerta importante. "Vale prestar atenção quando a criança fica irritada ou agressiva ao desligar o jogo, começa a mentir sobre o tempo que passou jogando, se isola da família, apresenta queda no rendimento escolar, muda os hábitos de sono e alimentação ou passa a esconder com quem conversa pela internet. Cada um desses sinais pode indicar dependência ou algo ainda mais sério, como abuso ou a tentativa de aproximação de alguém com má intenção."
Roblox, chats e compras dentro do jogo exigem atenção
Jogos populares como Roblox, Fortnite, Free Fire e Minecraft reúnem milhões de crianças diariamente. O problema, segundo o especialista, não está necessariamente no jogo em si, mas nas ferramentas de interação que eles oferecem.
"Os pais precisam ativar o controle parental, limitar as mensagens apenas para pessoas conhecidas e acompanhar as conversas sempre que possível. Criança não deve conversar livremente com desconhecidos na internet só porque isso acontece dentro de um jogo."
Outro ponto que costuma surpreender muitas famílias são as chamadas microtransações, pequenas compras feitas dentro dos próprios jogos, muitas vezes sem que os responsáveis percebam.
"Nas compras, o ideal é cortar o problema na raiz: desativar compras automáticas, exigir senha para qualquer aquisição, não deixar cartão de crédito salvo e acompanhar a fatura regularmente. Pelo Código de Defesa do Consumidor e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, compras realizadas por crianças que não têm discernimento para aquele ato podem, inclusive, ser questionadas e até estornadas. Não é um favor da plataforma. É um direito do consumidor."
O jogo quer seus dados. Você sabe quais? - Além das compras, existe outro aspecto pouco discutido: a quantidade de informações pessoais compartilhadas pelas crianças durante o cadastro ou ao utilizar determinadas funcionalidades.
"O consumidor precisa desconfiar quando o jogo pede dados que não são necessários para funcionar. É importante ler a política de privacidade, limitar permissões e evitar cadastrar informações reais sem necessidade."
O advogado lembra que a Lei Geral de Proteção de Dados estabelece proteção especial para crianças e adolescentes. "Para tratar dados de menores, a legislação exige consentimento específico e destacado de pelo menos um dos pais. Isso não é letra miúda. É obrigação legal."
Golpes, assédio e aliciamento: o que fazer?
Caso a criança seja vítima de golpes, assédio, cyberbullying ou qualquer situação suspeita, agir rapidamente faz diferença.
"A primeira providência é preservar todas as provas: prints, links, conversas, registros com data e horário. Depois, denunciar imediatamente na própria plataforma, registrar boletim de ocorrência e procurar a Delegacia de Crimes Cibernéticos ou o Conselho Tutelar."
Nos casos de maior gravidade, como aliciamento, pornografia infantil, extorsão ou ameaças, a orientação é não esperar.
"Essas situações configuram crimes graves. Também é possível comunicar o Ministério Público, a SaferNet e buscar reparação pelos danos sofridos. Dependendo do caso, cabe indenização por danos morais e materiais."
A responsabilidade não é só dos pais - Embora a participação da família seja indispensável, o especialista ressalta que a responsabilidade pela proteção de crianças no ambiente digital também é das empresas que desenvolvem e operam essas plataformas.
"As desenvolvedoras têm obrigação de oferecer classificação indicativa adequada, controle parental eficiente, canais de denúncia, sistemas de moderação, transparência sobre a coleta de dados e proteção reforçada para menores de idade."
Segundo ele, esse dever foi ampliado recentemente com a entrada em vigor do chamado ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), que criou regras específicas para a proteção de crianças e adolescentes na internet, exigindo medidas mais rigorosas de segurança, verificação de idade e mecanismos de proteção dentro das plataformas.
O Marco Civil da Internet, o Código de Defesa do Consumidor, a LGPD e agora o ECA Digital formam um conjunto de normas que aumenta a responsabilidade das empresas. A proteção da criança não pode depender apenas da atenção dos pais."
Proibir não resolve. Educar, sim.
Na avaliação do advogado, transformar as férias em uma batalha contra videogames dificilmente traz bons resultados.
"O caminho não é proibir tudo. É combinar regras claras, respeitar a classificação indicativa dos jogos, manter os aparelhos em áreas comuns da casa, equilibrar o tempo de tela com atividades fora da internet e, principalmente, manter o diálogo aberto."
Ele faz um último alerta aos pais. "Controle bom é o que educa e acompanha, não o que apenas bloqueia. Quando a criança sabe que pode contar aos pais caso alguém estranho apareça ou algo a incomode durante um jogo, a chance de evitar problemas aumenta muito. Segurança digital também começa dentro de casa."