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O Brasil vai envelhecer antes de aprender a trabalhar com os mais velhos – Dr. Ricardo Pacheco

O Brasil vai envelhecer antes de aprender a trabalhar com os mais velhos – Dr. Ricardo Pacheco

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Nos últimos anos, o mercado de trabalho concentrou seus holofotes em produtividade, tecnologia e bem-estar emocional. Mas há uma mudança silenciosa acontecendo por baixo de todos esses debates, e ela não vai desacelerar: a força de trabalho brasileira está envelhecendo, e as empresas seguem despreparadas para manter profissionais saudáveis, ativos e produtivos por mais tempo.
É o que defende o médico e gestor em saúde, Dr. Ricardo Pacheco, que também está presidente da ABRESST - Associação Brasileira de Empresas de Saúde e Segurança do Trabalho, entidade que hoje assiste mais de 4 milhões de trabalhadores em todo o País.
À frente da associação desde 2019, em seu terceiro mandato consecutivo, Pacheco tem atuação direta na construção de Normas Regulamentadoras que hoje regem a saúde ocupacional no Brasil - o que dá à sua leitura sobre o tema um peso pouco comum entre porta-vozes do setor. “Estamos preparando gestores para lidar com burnout e inteligência artificial, mas ninguém está preparando as empresas para o que já é uma certeza estatística: seus times vão ficar mais velhos, e vão precisar ficar mais velhos trabalhando”, afirma o médico.

Os números que mostram que o tempo está acabando

Os dados mais recentes deixam pouca margem para dúvida. Segundo a Organização Mundial da Saúde, até 2030 uma em cada seis pessoas no mundo terá 60 anos ou mais, e a população global nessa faixa etária deve chegar a 2,1 bilhões em 2050.
No Brasil, o processo já é mensurável e acelerado. De acordo com a PNAD Contínua 2025, divulgada pelo IBGE, o País chegou a 212,7 milhões de habitantes, com crescimento populacional cada vez mais lento, abaixo de 0,60% ao ano desde 2021.
Enquanto isso, a fatia de brasileiros com 60 anos ou mais saltou de 11,3% em 2012 para 16,6% em 2025, o maior patamar da série histórica. No mesmo período, a proporção de pessoas com menos de 40 anos caiu 6,1%.
“Isso não é uma projeção distante para 2050. É uma mudança que já está dentro do quadro de trabalhadores das empresas brasileiras hoje. A pirâmide etária virou, e o RH ainda está com o organograma de vinte anos atrás”, resume Dr. Ricardo Pacheco.

O mundo corporativo já foi avisado, e ainda não reagiu

O alerta não vem só de institutos de estatística. O Fórum Econômico Mundial, em seu relatório Future of Jobs 2025, elencou as mudanças demográficas como um dos principais fatores de transformação do mercado de trabalho até 2030, ao lado da inteligência artificial e das novas tecnologias.
O documento, construído a partir da percepção de mais de mil empregadores globais, aponta o envelhecimento da força de trabalho nas economias de maior renda, caso do Brasil, como um vetor direto de pressão sobre saúde, gestão de talentos e modelos de trabalho. “O relatório do Fórum Econômico Mundial coloca lado a lado inteligência artificial e envelhecimento populacional como forças que vão redesenhar o trabalho até 2030. As empresas já gastam fortunas se preparando para a primeira. Quase nenhuma está se preparando para a segunda”, observa o médico, mentor, palestrante e autor.

Da prevenção de doenças à construção de carreiras longas

Para Dr. Ricardo Pacheco, esse cenário exige uma mudança de paradigma na própria definição de medicina do trabalho - um debate que ele vive na prática, não só na teoria.
Como diretor de Ética e Legislação da ABRESST entre 2008 e 2019, e hoje como presidente da entidade pela terceira gestão consecutiva, participou diretamente da revisão e criação de Normas Regulamentadoras estruturantes para o setor, como o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) da NR-01, além da inclusão dos riscos psicossociais nas normativas trabalhistas brasileiras. “Durante décadas, a medicina do trabalho foi sinônimo de evitar afastamento: examinar, liberar, tratar o que adoeceu. Isso não é mais suficiente. A pergunta que as empresas vão precisar responder é outra: como eu construo, com meu time, uma carreira longa, saudável e sustentável, e não apenas uma carreira sem acidente de trabalho?”, questiona.
Segundo ele, isso passa por repensar desde a ergonomia dos postos de trabalho até os critérios de promoção, plano de carreira e gestão de desempenho; hoje, em geral, desenhados para um trabalhador jovem, e não para um profissional de 60, 65 ou 70 anos que continuará ativo no mercado.
"A empresa que só pensa em prevenção de doença está olhando para o passado da medicina do trabalho. O futuro da área é sobre sustentabilidade de carreira: quanto tempo esse profissional pode continuar entregando valor, com saúde, e o que a empresa está fazendo, hoje, para que isso seja possível", completa.

O desperdício invisível: quando a experiência é descartada

Há ainda uma dimensão do problema pouco discutida nos comitês de RH, na visão do médico: o custo de descartar profissionais maduros.
“Toda vez que uma empresa empurra para fora um profissional experiente só porque ele passou de determinada idade, ela não está economizando, ela está queimando conhecimento técnico, memória organizacional e capacidade de mentoria que levaram décadas para se formar. Isso não aparece em nenhuma planilha de custos, mas aparece no resultado”, alerta Dr. Ricardo Pacheco.
Ele lembra que, com o time de 40 a 59 anos já somando 58,6% da população brasileira segundo o IBGE, esse "desperdício de experiência" tende a se tornar cada vez mais caro para as organizações que não se anteciparem.
A provocação que o médico deixa para gestores e empresas

Ao final, Dr. Ricardo Pacheco resume o desafio em uma pergunta direta, que pretende levar a lideranças, RHs e comitês de saúde ocupacional:
“Estamos preparados para uma realidade em que profissionais de 60, 65 e até 70 anos continuarão ativos no mercado de trabalho? Se a resposta for não, o momento de começar a se preparar não é daqui a dez anos. É agora, porque o Brasil está envelhecendo mais rápido do que as empresas estão aprendendo a lidar com isso.”

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