No Brasil, esse cenário acompanha transformações sociais profundas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de mulheres que têm filhos mais tarde aumentou nas últimas décadas, refletindo maior inserção no mercado de trabalho e aumento da escolaridade feminina, com crescimento dos nascimentos entre mulheres acima dos 30 e 35 anos, evidenciando a tendência da maternidade tardia no país. Para se ter uma ideia, o número saltou de 22% em 2000, para mais de 35% em 2019. É nesse contexto que surge um dos principais dilemas da mulher contemporânea: conciliar o desejo, ou não, de ser mãe com o momento profissional, a estabilidade emocional e as condições biológicas. Para muitas, essa decisão vem acompanhada de questionamentos que não têm respostas simples.
A ginecologista e obstetra Ana Carolina Massarotto, de 42 anos, vive esse lugar de reflexão, sem filhos, ela conta que a maternidade nunca foi uma prioridade em sua trajetória, mas hoje observa o tema com outros olhos. “Eu não posso dizer que me arrependo, porque cada escolha foi feita com muita consciência dentro do momento que eu estava vivendo, mas existe, sim, uma reflexão, talvez eu pudesse ter pensado em preservar essa possibilidade, como o congelamento de óvulos, a gente acredita que tem tempo, que pode decidir depois, e nem sempre é assim”, relata.
Do outro lado dessa vivência está a também ginecologista e obstetra Isabela Simionatto, de 38 anos, mãe de dois filhos e que enfrentou a perda da primeira gestação. Para ela, a maternidade é marcada tanto pela plenitude quanto pela vulnerabilidade. “Ser mãe é uma das experiências mais intensas que existem, mas também é atravessada por medos, frustrações e, muitas vezes, por perdas que nem sempre são visíveis para os outros”, compartilha.
As histórias de Ana Carolina e Isabela, embora diferentes, se encontram em um ponto comum: o peso das expectativas sociais e o desafio de equilibrar múltiplos papéis, como os de mulher, profissional, filha, parceira e, para muitas, mãe, o que exige um nível de entrega que impacta diretamente a saúde física e emocional.
A maternidade tardia, cada vez mais frequente, também traz implicações clínicas importantes. De acordo com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), gestações após os 35 anos podem demandar maior acompanhamento devido a riscos aumentados, além de estarem frequentemente associadas a um contexto de transição hormonal, o que torna o cuidado ainda mais complexo. O fato é que não são apenas as mães maduras que enfrentam desafios, mulheres que engravidam mais jovens também lidam com suas próprias dificuldades, como a interrupção de planos profissionais, a sobrecarga precoce e a pressão por corresponder a um ideal de maternidade muitas vezes inalcançável.
Independentemente da idade ou do momento de vida, há um elemento que atravessa todas essas experiências, que é a tentativa constante de dar conta de tudo. Dados coletados em 2019 pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE mostram que as mulheres dedicam mais tempo (21,4 horas semanais) aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas do que os homens (11 horas semanais), o que amplia o desgaste físico e emocional. “Existe uma cobrança muito grande para que a mulher seja uma mãe perfeita, que dê conta de tudo, que esteja sempre disponível, equilibrada e feliz, e isso não é real, não acontece o tempo todo. Essa expectativa gera culpa, frustração e um peso emocional muito grande”, afirma Isabela Simionatto.
Neste mês de maio, mais do que celebrar, o convite é ampliar o olhar, lembrando que falar sobre maternidade também é falar sobre saúde, escolhas, limites, humanidade e reconhecer que, por trás de cada história, existe uma mulher tentando equilibrar seus próprios desejos com as demandas do mundo, muitas vezes em silêncio, muitas vezes sem rede de apoio, mas sempre em movimento.