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Profissionais da saúde vivem avanço simultâneo de doenças mentais e violência nos hospitais – Dr Ricardo Pacheco

Profissionais da saúde vivem avanço simultâneo de doenças mentais e violência nos hospitais – Dr Ricardo Pacheco

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Profissionais da saúde vivem avanço simultâneo de doenças mentais e violência nos hospitais

Crescem os afastamentos por transtornos mentais e os casos de agressão nas unidades de saúde; médico alerta que hospitais emocionalmente adoecidos se tornaram um novo risco ocupacional no Brasil.

O avanço dos transtornos mentais entre profissionais da saúde deixou de ser uma crise silenciosa e passou a impactar diretamente a segurança, o funcionamento e as relações dentro dos hospitais brasileiros. Os números mais recentes mostram que o País vive uma deterioração simultânea da saúde emocional das equipes e do ambiente institucional nas unidades de atendimento - cenário que já preocupa especialistas em saúde ocupacional, medicina do trabalho e gestão hospitalar.

Segundo dados do Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou, em 2025, mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, consolidando o maior volume já registrado para esse tipo de afastamento. Ansiedade, depressão e episódios relacionados ao esgotamento emocional lideram as concessões em todo o país.

Entre os transtornos mais recorrentes estão ansiedade generalizada, episódios depressivos, síndrome do pânico, transtornos adaptativos e burnout.

A ansiedade lidera os registros nacionais de licenças previdenciárias, seguida pela depressão, enquanto os afastamentos ligados à síndrome de burnout dispararam nos últimos quatro anos.

Dentro desse cenário, enfermagem e medicina aparecem entre as profissões mais atingidas pelo adoecimento emocional.

Especialistas apontam que a combinação entre jornadas extensas, múltiplos vínculos empregatícios, déficit de profissionais, pressão assistencial, violência institucional, cobrança por produtividade e trauma residual da pandemia criou um ambiente de desgaste contínuo nas unidades de saúde brasileiras.

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) vem emitindo alertas frequentes sobre o crescimento das licenças psiquiátricas na categoria e sobre os efeitos da sobrecarga física e emocional sobre enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem.

Além disso, os dados previdenciários mostram apenas parte do problema. Como os registros oficiais contabilizam principalmente afastamentos superiores a 15 dias, especialistas alertam para uma enorme subnotificação de trabalhadores que permanecem em atividade mesmo apresentando sintomas severos, como insônia, irritabilidade, fadiga extrema, crises de ansiedade, dificuldade de concentração e exaustão emocional.

“Muitos profissionais continuam trabalhando completamente esgotados porque existe medo de afastamento, pressão financeira, sentimento de culpa com as equipes e até banalização do sofrimento emocional dentro do setor da saúde. Isso cria um adoecimento silencioso extremamente perigoso”, afirma o médico do trabalho, gestor em saúde, palestrante, mentor e autor Dr. Ricardo Pacheco.

Outro dado que chama atenção é o perfil dos afastamentos. Segundo o Ministério da Previdência Social, as mulheres representam 63,46% dos benefícios concedidos por transtornos mentais no País - fator que impacta diretamente setores como enfermagem e assistência hospitalar, compostos majoritariamente por profissionais do sexo feminino.

 

Burnout explode e hospitais operam sob tensão emocional permanente

 O crescimento dos afastamentos relacionados ao burnout se tornou um dos principais alertas dentro da saúde ocupacional.

Nos últimos anos, o esgotamento profissional deixou de ser uma condição isolada e passou a atingir equipes inteiras dentro das instituições hospitalares. Especialistas apontam que ambientes marcados por pressão contínua, déficit operacional, urgência permanente e sobrecarga emocional favorecem o desenvolvimento de exaustão psíquica coletiva.

Segundo Dr. Ricardo Pacheco, os hospitais brasileiros passaram a operar sob um modelo de tensão humana constante. “Estamos diante de um fenômeno coletivo. Não é mais apenas o profissional adoecendo individualmente. São equipes inteiras trabalhando sob desgaste contínuo, tensão permanente e pressão emocional extrema. Isso muda o comportamento das pessoas, aumenta conflitos, reduz tolerância ao estresse e fragiliza o ambiente hospitalar como um todo”, afirma.

Segundo ele, o debate sobre saúde mental ainda é tratado de forma superficial por muitas organizações, enquanto os efeitos concretos da exaustão emocional já alteram a dinâmica operacional das instituições. “O hospital vive diariamente no limite humano. O profissional lida o tempo inteiro com sofrimento, urgência, escassez, morte, responsabilidade extrema e tomada de decisão crítica. Quando esse cenário se soma a jornadas abusivas, ambientes desorganizados e ausência de suporte psicológico institucional, o resultado é uma deterioração emocional coletiva”, alerta.

Na avaliação do médico, o adoecimento emocional deixou de ser apenas uma questão clínica individual e passou a produzir impactos diretos sobre segurança assistencial, comunicação interna, relacionamento entre equipes e funcionamento organizacional. “A exaustão emocional altera comunicação, reduz empatia, aumenta intolerância, favorece conflitos e compromete relações interpessoais. Isso afeta profissionais, pacientes, lideranças e a própria estabilidade institucional”, diz.

 

Violência hospitalar cresce junto com a deterioração emocional das equipes

Ao mesmo tempo em que avançam os transtornos mentais, cresce também a violência ocupacional dentro das unidades de saúde.

Levantamento divulgado esse ano pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), revelou que quase mil médicos sofreram algum tipo de agressão durante o exercício profissional entre 2018 e 2025 apenas no estado do Rio de Janeiro. Foram registrados 459 episódios de agressão verbal, 208 casos de assédio moral e 89 agressões físicas.

Tradicionalmente, a violência hospitalar costuma ser associada à superlotação, demora no atendimento, tensão nas emergências, falta de leitos e ausência de estrutura adequada. Mas especialistas da área de saúde ocupacional começam a apontar um componente estrutural ainda pouco debatido: o impacto dos riscos psicossociais sobre o ambiente relacional dentro das instituições.

Revisões científicas internacionais publicadas em 2025 mostram associação consistente entre burnout, fadiga emocional crônica, irritabilidade, deterioração das relações interpessoais, assédio organizacional e aumento de conflitos em equipes hospitalares.

Segundo Dr. Ricardo Pacheco, hospitais emocionalmente adoecidos passam a operar sob tensão permanente. “Quando equipes trabalham continuamente sob desgaste extremo, pressão assistencial, medo, insegurança e exaustão emocional, o ambiente institucional inteiro muda. O nível de tolerância diminui, os conflitos aumentam e as relações humanas começam a se deteriorar”, explica.

Para ele, o Brasil começa a viver um novo paradigma dentro da saúde ocupacional: ambientes emocionalmente fragilizados passam a produzir efeitos concretos sobre segurança, comportamento coletivo e funcionamento das instituições. “Hospitais emocionalmente adoecidos se tornam ambientes mais inseguros. Isso afeta profissionais, pacientes, lideranças e a própria qualidade da assistência”, afirma.

 

NR-1 fortalece reconhecimento dos riscos psicossociais

Para o presidente da ABRESST, um dos movimentos mais importantes dos últimos anos foi justamente a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), conduzida pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

A norma passou a reconhecer oficialmente fatores psicossociais relacionados ao ambiente laboral dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), incluindo pressão excessiva, metas abusivas, jornadas desgastantes, assédio moral, conflitos interpessoais, sobrecarga emocional e ausência de suporte organizacional.

Segundo Dr. Ricardo Pacheco, a mudança representa uma transformação histórica porque desloca o debate do adoecimento individual para a responsabilidade organizacional. 

“Durante décadas, o sofrimento mental foi tratado quase exclusivamente como fragilidade emocional do trabalhador. A atualização da NR-1 ajuda a consolidar uma visão moderna: ambientes organizacionais também adoecem pessoas. Isso muda completamente a lógica da prevenção”, afirma.

Na avaliação do médico do trabalho, o avanço regulatório ganha importância ainda maior dentro do setor hospitalar justamente pela intensidade emocional característica da atividade. “Hospitais trabalham diariamente no limite humano. Ignorar riscos psicossociais dentro da saúde é fechar os olhos para uma das maiores crises ocupacionais da atualidade”, alerta.

Segundo ele, ainda existe muita desinformação sobre o alcance da norma. “Existe uma narrativa equivocada de que a NR-1 virou uma ‘norma da saúde mental’. Isso não é verdade. A saúde mental é apenas uma das dimensões dos riscos psicossociais. A norma trata de gestão organizacional, prevenção, ambiente laboral saudável e segurança ocupacional”, ressalta.

 

Adoecimento emocional deixa de ser pauta individual e se torna questão estrutural

 

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que depressão e ansiedade geram perda global de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com impacto econômico superior a US$ 1 trilhão anuais em perda de produtividade.

No Brasil, o crescimento dos afastamentos relacionados à saúde mental já preocupa especialistas em previdência, segurança do trabalho, gestão organizacional e sustentabilidade institucional.

Para Dr. Ricardo Pacheco, os efeitos do adoecimento emocional já ultrapassam os indicadores previdenciários e começam a comprometer produtividade, segurança operacional, retenção de profissionais, funcionamento institucional e qualidade assistencial. “O adoecimento emocional hoje impacta produtividade, segurança, relações humanas, funcionamento institucional e sustentabilidade econômica das organizações. Não é mais possível tratar saúde mental corporativa como pauta secundária”, afirma.

 

Segundo ele, o principal desafio dos próximos anos será fazer com que empresas e instituições compreendam que prevenção psicossocial exige mudanças estruturais e não apenas ações pontuais de bem-estar. “O que a NR-1 propõe é muito mais profundo. Ela exige revisão de cultura organizacional, liderança, comunicação, carga de trabalho, gestão e funcionamento institucional. Isso exige maturidade organizacional”, diz.

Para o médico, o setor hospitalar talvez seja hoje o ambiente onde os efeitos dos riscos psicossociais aparecem de forma mais intensa e visível. “O hospital é uma espécie de laboratório extremo da pressão emocional do trabalho contemporâneo. Ali aparecem, de forma amplificada, problemas que já começam a atingir diversos outros setores econômicos”, conclui Dr. Ricardo Pacheco.

 

Mais do que uma crise de saúde mental, o que emerge nos hospitais brasileiros é um alerta sobre o limite humano do atual modelo de trabalho na saúde. Quando profissionais adoecem em massa, equipes entram em colapso emocional e a violência passa a integrar a rotina institucional, o problema deixa de ser individual e passa a representar um risco estrutural para toda a assistência.

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