Fernanda Mazzuia - médica pediatra e coordenadora do Pronto-Socorro Infantil do Vera Cruz Hospital em Campinas
Durante as férias escolares, a dúvida sobre o que realmente exige atendimento imediato no pronto-socorro infantil se torna ainda mais comum entre os pais.
O período, marcado por mudanças na rotina das crianças, também altera o perfil dos atendimentos: há redução de casos infecciosos, como gripes, resfriados e gastroenterites, e aumento de ocorrências relacionadas a acidentes domésticos e de lazer, como quedas, fraturas, queimaduras, afogamentos e intoxicações alimentares, que exigem atenção redobrada das famílias.
Segundo a médica pediatra e coordenadora do Pronto-Socorro Infantil do Vera Cruz Hospital, em Campinas, Fernanda Mazzuia, nem sempre é simples identificar quando um quadro exige atendimento imediato, mas alguns sinais funcionam como importantes alertas para os pais.
“Falta de ar ou dificuldade respiratória, vômitos persistentes com recusa de líquidos, dor abdominal intensa, presença de sangue ou muco nas fezes, episódios de desmaio ou convulsão e febre alta associada à prostração, sonolência ou irritabilidade, especialmente em bebês menores de três meses, são situações que exigem avaliação urgente”, explica. Traumas, fraturas e ferimentos mais graves também não devem ser negligenciados.
Por outro lado, nem todo sintoma demanda ida imediata ao pronto-socorro. Em muitos casos, é possível observar a evolução em casa com cuidado e atenção.
“Resfriados comuns sem sinais de gravidade, febre baixa em crianças maiores de três meses que mantêm boa aceitação de líquidos, episódios leves de diarreia sem sinais de desidratação e pequenos traumas superficiais tendem a evoluir de forma benigna.
Nesses casos, hidratação, conforto e observação são medidas geralmente suficientes, sempre com atenção a qualquer mudança no quadro”, explica.
A febre, um dos principais motivos de preocupação entre os pais, também merece avaliação criteriosa. “Em muitos casos, ela representa uma resposta natural do organismo e não exige atendimento imediato. Porém, em bebês com menos de três meses, qualquer febre é motivo de avaliação urgente. Em crianças maiores, febre persistente por mais de três dias ou associada a sinais como manchas roxas na pele, rigidez na nuca, convulsões, dificuldade para respirar, diminuição da urina ou recusa alimentar deve ser investigada. Em pacientes onco-hematológicos, a febre é sempre um sinal de alerta imediato”, destaca a pediatra.
Quedas, comuns na infância, também exigem atenção a sinais específicos, como perda de consciência, vômitos após o impacto, sonolência excessiva, alteração no tamanho das pupilas, suspeita de fratura ou quedas de maior altura. “Para lactentes e menores de um ano, toda queda deve ser avaliada em pronto-socorro”, reforça a médica.
Quadros de vômitos e diarreia, embora frequentes, podem evoluir com gravidade quando há sinais de desidratação, como boca seca, ausência de lágrimas, olhos fundos, diminuição da urina, prostração ou incapacidade de ingerir líquidos. Nesses casos, a busca por atendimento é fundamental para evitar complicações.
Fernanda Mazzuia destaca que, no entanto, o pronto-socorro é um ambiente com alta circulação de vírus e bactérias, o que também deve ser considerado na decisão de procurar atendimento. “Avaliar o estado geral da criança e a evolução dos sintomas em quadros leves pode evitar exposições desnecessárias. Ao mesmo tempo, sinais de alerta nunca devem ser ignorados, especialmente em bebês pequenos”, orienta.
Além da avaliação clínica, a prevenção segue como um dos pilares mais importantes para reduzir idas desnecessárias ao pronto-socorro. Manter a vacinação em dia, reforçar a higiene das mãos e dos alimentos, garantir segurança em piscinas e ambientes de lazer, além de cuidados domésticos como proteção de tomadas, quinas e uso adequado de cadeirinhas no carro, são medidas essenciais durante as férias.
Ter um kit básico em casa também contribui para a segurança das famílias, com itens como termômetro, antitérmicos prescritos pelo pediatra, soro de reidratação oral, soro fisiológico, curativos e antisséptico. O contato do pediatra deve estar sempre acessível para orientações rápidas.
“As férias são um período de lazer, mas exigem supervisão constante. A prevenção e o bom senso são fundamentais para garantir a segurança das crianças. Na dúvida, observar o estado geral ajuda, mas qualquer sinal de piora deve levar à avaliação médica”, finaliza a especialista.