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24 de abril de 2026

Seletividade alimentar na infância, que inclusive é frequente no autismo – Regina Kostenko

nutricionista pediátrica

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Por que falar de alimentação no TEA
O transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição do
neurodesenvolvimento em que alterações de comunicação social,
comportamentos repetitivos, rigidez e diferenças no processamento sensorial
podem repercutir de forma importante na alimentação. Na prática, isso ajuda a
explicar por que a seletividade alimentar é uma queixa tão frequente entre
famílias de crianças com TEA.
A literatura recente mostra que, nessa população, a seletividade alimentar pode
se manifestar com repertório muito restrito, recusa persistente de novos
alimentos, preferência por marcas e apresentações específicas, exclusão de
grupos alimentares inteiros e grande sensibilidade a textura, temperatura, cor,
cheiro e aparência dos alimentos. Esse padrão pode comprometer a variedade
alimentar e aumentar o risco de inadequações nutricionais.
“No consultório, a questão alimentar em crianças com TEA raramente se resume
a ‘não gosta de comer’. O que eu vejo, na prática, é uma relação muito mais
complexa com os alimentos, em que textura, temperatura, cor, marca, formato e
previsibilidade podem definir aceitação ou recusa.” – Regina Kostenko
Quando a previsibilidade favorece os ultraprocessados
Muitas crianças com TEA acabam aceitando melhor alimentos ultraprocessados.
Isso não significa, necessariamente, uma preferência espontânea por alimentos
de pior qualidade, mas muitas vezes uma resposta à previsibilidade sensorial
que esses produtos oferecem. Em geral, são alimentos que mantêm sabor,
textura, cor, crocância, cheiro e aparência constantes, sem alterações,
independente das diferentes ocasiões de consumo, o que pode facilitar a
aceitação em crianças com maior rigidez alimentar.
“Na prática clínica, eu observo que muitos ultraprocessados acabam sendo bem
aceitos porque entregam exatamente aquilo que a criança espera. Eles são
previsíveis. E, para muitas crianças com TEA, essa previsibilidade traz sensação
de segurança na alimentação.” – Regina Kostenko
O problema é que essa previsibilidade pode vir acompanhada de um padrão
alimentar empobrecido. Quando a dieta fica centrada em poucos produtos
ultraprocessados, a criança pode até manter ingestão energética adequada ou
elevada, mas com pouca variedade e menor densidade nutricional global. Além
disso, as evidências mais recentes sobre ultraprocessados sustenta que sua
maior participação na alimentação está associada a piores desfechos de saúde
e à substituição de padrões alimentares tradicionalmente baseados em
alimentos in natura ou minimamente processados.
“Quando a alimentação fica muito concentrada em produtos ultraprocessados, o
prejuízo não está apenas no excesso de açúcar, gordura ou sódio. Esses
produtos muitas vezes passam a ocupar o lugar de refeições e alimentos que
ofereceriam mais variedade, mais densidade nutricional e mais oportunidades
de ampliação do repertório.” – Regina Kostenko
Nutrientes que merecem atenção nessa população
Em crianças com TEA e seletividade alimentar importante, alguns nutrientes
merecem atenção especial na avaliação nutricional, entre eles vitamina D, zinco,
magnésio e ômega-3. Isso acontece porque, quando a alimentação se torna
muito restrita, repetitiva e centrada em poucos alimentos aceitos, muitas vezes
com grande participação de carboidratos refinados e produtos ultraprocessados
de baixo valor nutricional, aumenta o risco de uma dieta pouco variada e
nutricionalmente desequilibrada.
Esses nutrientes têm funções importantes no organismo. A vitamina D participa
de processos relacionados à saúde óssea, à função imunológica e
neuromuscular. O zinco está envolvido no crescimento, na imunidade, na síntese
proteica e em múltiplas funções do desenvolvimento neurológico. O magnésio
participa de sistemas enzimáticos e do metabolismo energético, e o ômega-3,
especialmente DHA e EPA, tem papel estrutural e funcional relevante no sistema
nervoso. Revisões e meta-análises recentes mostram que, no TEA, há interesse
clínico e científico nesses nutrientes, mas também reforçam que a interpretação
deve ser cuidadosa e individualizada, sem transformar nutrientes isolados em
solução única para um quadro multifatorial.
“O ponto principal não é presumir deficiência nem indicar suplemento de rotina.
O mais importante é avaliar com cuidado a qualidade da dieta, o repertório
alimentar da criança e o risco real de inadequação nutricional. Por isso a
importância de acompanhamento com profissional nutricionista”
– Regina
Kostenko
O que a prática clínica reforça
A avaliação nutricional de crianças com TEA não deve se limitar à quantidade
que a criança come. É fundamental observar qualidade global da dieta,
variedade do repertório, exclusão de grupos alimentares, contexto sensorial,
rotina das refeições e impacto disso sobre crescimento, comportamento
alimentar e risco de carências nutricionais. Estudos com crianças e adolescentes
com TEA e seletividade grave já demonstraram risco elevado de múltiplas
inadequações nutricionais quando a dieta se torna excessivamente restrita.
Ao mesmo tempo, a literatura recente sobre intervenções dietéticas e
nutricionais em transtornos neuropsiquiátricos da infância reforça que famílias
frequentemente buscam respostas em suplementos e estratégias isoladas, mas
que a conduta baseada em evidências precisa diferenciar possibilidades reais
de uso clínico de promessas sem sustentação robusta.
“No atendimento nutricional, o foco não é procurar um nutriente isolado como
resposta para tudo, mas entender se aquela criança está conseguindo, dentro
das suas possibilidades e dificuldades, construir uma alimentação mais variada,
mais nutritiva e mais segura do ponto de vista clínico.” – Regina Kostenko

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